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Minhas Aventuras

"After climbing a great hill, one only finds there are many more hills to climb"
Nelson Mandela

sábado, 28 de julho de 2012

Relato do Caminho de Santiago de Compostela - 3ª dia




Dia 3 - Santo Domingo de La Calzada a Carrión de los Condes


22/06/2012

Apesar do sol, o dia amanheceu gelado e fomos salvos pelos nossos corta-vento da Kailash!!

Oops, hace frio!
E antes de seguir caminho, visitamos esta praça que possui uma escultura em homenagem ao Peregrino Ciclista, lá em Santo Domingo de la Calzada. Muito legal!



E logo partimos para o pedalmaislongodavidá! 160km nos separavam do nosso destino final Carrión de los Condes.
Hitting the way
A primeira meta era chegar em Burgos, uma cidade grande a 75km de distância. Só que para chegar lá teríamos que subir mais ou menos 1.000 mts.


O Caminho nos presenteia com belas paisagens pelas colinas e fazendas da região.


 Foi uma manhã ensolarada e muito agradável.

Mapa do caminho -ainda falta "um pouquinho"
No caminho cruzamos com dois ciclistas peregrinos que marcaram presença na nossa viagem. Apelidamos o mais marrentinho de Orbea (bike dele...). Ele queria a qualquer custo pedalar com a gente - ou na nossa frente. Só que ele tinha um alforje de uns 10 kgs e um parceiro gente boa com ritmo próprio. O Orbea era forte.

O Orbea deixou uma má primeira impressão, pois passou por mim ebaforido numa subida técnica, me atrapalhando, o que me deixou bem irritada. Pra que moço??? Paz!! Estamos en el Camino, amigo!
Igreja no caminho, pouco antes do "ataque do Orbea"
Depois veio um downhill e meu lado negro não aguendou: quando ele parou para esperar o amigo mandei um olhar profundo "Don't you mess with me my friend" hehehe que num assusta nem mosca.

Seguimos e depois de um bom tempo chegamos em Burgos.


Cidade simpática!!!
Catedral de Burgos!
Elas!
Passagem rápida para não perder o ritmo. Carimbamos os passaportes e seguimos em frente.

Almoçamos em um lugar próximo, um pueblo chamado Rabé, de 200 habitantes. Essa parada acabou sendo especial

O dono do restaurante que escolhemos nos recebeu com a alegria de quem recebe os primeiros fregueses. E olha que esse senhor nasceu ali!

Preparou na hora a melhor salada que comemos em toda viagem! Escrevemos uma nota de R$10 um bilhete ao nosso querido novo amigo e pregamos no mural de recados, ao lado de uma nota de R$2 com o bilhete de outros camaradas Brasileiros. Esse senhor tem muitos amigos ao redor do mundo!

Na despedida fomos presenteados com uma santinha da padroeira da cidade. Que encontro delicioso!!

Quando saímos do restaurante parecia que estávamos entrando em um forno! Que calor!! Difícil recuperar o rítmo.

Tínhamos mais 1 topzinho duro até chegar no trecho plano de todo Caminho. 

Em Castrojeriz fizemos uma pausa merecida para conseguir enfrentar o morro. 

gordurinha merecida.
dei trabalho pra elas
Essa tb trabalhou bastante
A moça do albergue deu a entender que a subida seria ardidinha.

Se ampliar a imagem abaixo dá pra ver o rastro do Caminho subindo na montanha lá na frente.


Cada um subiu no seu ritmo. Meu carburador semi cozinhou, e sem parar tive que jogar água na cabeça pra baixar a temperatura corporal. E o Xuxa me esperou lá em cima para tirar essa bela foto!

Nessa subida cruzamos com uma família: o pai rebocava um carrinho gigante daqueles cobertos onde o filho ficava. A mãe pedalava outra bike. Estavam estacionados recuperando forças pra terminar a subida. Não pareciam contentes.

Depois disso chegamos em Puente Fitero, onde inicia o trecho plano de todo Caminho e segue assim por aproximadamente 200 Km
 
Em Hospital de Orbigo o Caminho volta a ganhar altitude na subida da famosa Cruz de Ferro - por onde passamos no 5º dia (relato em breve!!).

Para quem vai a pé, esse trecho plano acaba sendo o mais difícil justamente por não apresentar dificuldades técnicas. Isso deixa a peregrinação monótona e exige muita paciência, compreensão e auto-confiança

Para mim não foi muito diferente disso, posso dizer que vivi todas essas coisas, mas não podemos desconsiderar o fato de levarmos muito menos tempo de bicicleta.


Enfim, continuando a história do Orbea, ele, seu galão de água e seus 10kgs de peso extra nos passou em uma de nossas pausas para lanchinho. Eu vi, mas não falei nada pro Xuxa para ele não pilhar.

Mããs... logo tínhamos os dois em nosso campo visual. 
Vivi: "Deixa eles... vamos fazer o nosso ritmo.."
Xuxa: "É, tranquilo..."

5 minutos depois.... éramos dois retardados esprintando loucamente no Caminho de Santiago de Compostela.

tsc tsc tsc.

Passamos a dupla e thank God a próxima parada - Fromista - estava bem próxima! 

Acabamos chegando juntos na padaria/lanchonete/bar/restaurante e sentamos próximos. Papeamos. Eles começaram o Caminho em Roncesvalles, pois não tinham tempo suficiente para incluir os Pirineus no plano. 

Nós ainda tínhamos mais 20k de pedal até o destino do dia, Carrión de los Condes. Eles ficaram por lá. Buen Camino!

Os 20 kilometros finais eram sempre os piores. Duro mesmo. Para o Xuxa eram só os 10 últimos que pegavam.

Dores, desconforto, cansaço, fome... alguma dessas coisas sempre pegava forte.

Esse foi o dia da dor no braço direito que começava na ponta do dedo médio e se extendia até o trapezio. Num era uma dorzinha, era uma baita dor de formigamento que não passava de jeito nenhum. Não tinha posição, alongamento ou reza que resolvesse o negócio. Também não adianta reclamar.

Essa dor já tinha se instalado mais cedo, mas há 20km do meu descanso ela quis testar os meus limites.

O jeito era lidar com ela. Mentalizar, "organizar" as energias, tentar redirecioná-las, buscar equilíbrio mental... é um trabalho de cabeça. E nessa hora só existia isso. Eu, minha respiração, as pedaladas, o Caminho e o equilibrio. Ia seguindo o Xuxa.

E foi com 11h e 05min de transição que chegamos em Carrión de los Condes. Fomos direto para o hotel-monastério San Zoilo. Nem lembro como descobrimos esse lugar, mas parecia um cenário de filmes. Muito legal!!! Na hora pensei "hm, aqui deve ter condicionador pro cabelo.." hehe (não)

O moço da recepção parecia um pouco assustado com o nosso estado. É, não deve ser comum ver esse tipo de "figura" na sua frente... um casal de bicicleta carregando apenas uma mochila, de capacete, luva, óculos, roupa estranha (de ciclismo), entrando na recepção imundos, fedidos e exaustos!

Eu não estava bem, então depois de tomar banho e lavar a roupa (e escovar o cabelo), tive que repousar um pouco, cuidar do meu corpo.

O Xuxa foi dar uma volta pela cidade e comprar umas comidinhas pro café da manhã.

Só consegui dormir nesse dia depois de muita reza e meditação. Eu soluçava!

Mas meu cuidado pareceu correto - a dor passou no dia seguinte! Mas não pára por aí...


Lembrando que a parceria dos nossos apoiadores KAILASH, GU, GORGEOUS EVENTOS e CAÇULA DE PNEUS e a assessoria da nossa querida treinadora ADRIANA NASCIMENTO, foram fundamentais nessa jornada. Vocês tiveram muita participação no sucesso de cada etapa vencida. Obrigada!!! 

Acompanhe aqui todos os relatos do Caminho:

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