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Minhas Aventuras

"After climbing a great hill, one only finds there are many more hills to climb"
Nelson Mandela

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Relato de 2016

2016 deve estar sendo o ano mais importante da minha vida. Pude me dedicar 100% à carreira de atleta em uma equipe profissional internacional, realizando algo que nunca imaginei ser possível, ainda mais aos 30 anos.

Acho que vai levar um tempo para eu compreender tudo e poder destacar momentos mais importantes, ou os principais aprendizados. Por enquanto, preciso descansar o corpo e a mente e curtir minhas duas semanas de férias para poder voltar “fresh” e traçar os objetivos de 2017. E nada como escrever, para compartilhar com você que está lendo, e também fazer um favor pra mim mesma, de colocar no papel essa história.

Desde o momento em que assinei o contrato com a ROSE Vaujany fueled by ultraSPORTS, em Dezembro de 2015, meu comprometimento com os treinos foram absolutos e eu estive assim até agora.
Fizemos uma campanha teaser nas redes sociais para anunciar a novidade
Minha primeira competição foi a Costa Blanca Bike Race, na Espanha em Janeiro, uma prova de 4 dias que fiz com a Nathi (Nathalie Schneitter, companheira de equipe) e ficamos em 2º.
Depois disso, meu foco dos treinos seria o mundial de Maratona, mas a equipe me propôs a experiência de participar de World Cups de XCO, algo que me traria uma bagagem sem preço, mas seria um desafio muito duro.


Também vale ressaltar que na filosofia “super pro”, o que conta são as 5 últimas semanas de treino antes de uma prova, essa é a memória do corpo. E eu teria tempo suficiente antes do mundial de XCM para me recuperar das provas de XCO e fazer esse bloco de 5 semana. Abracei.
Para me preparar pras WC´s, fiz a CIMTB em Araxá e o Panamericano na Argentina. Os treinos passaram a contar com intervalos em trilha, seguidos de descidas técnicas para treinar a pilotagem em alta frequência cardíaca/desgaste total.

Panamericano em Catamarca - Argentina
Minha performance no XCO está longe da desenvoltura que tenho no XCM, nunca fiz uma base nessa modalidade, e não posso falar que tive algum resultado nessas provas.

Em Albstadt, na Alemanha, uma pista pouco técnica comparada com as outras (mas acredite, é técnica), minha força ajudou e mesmo com alguns erros de pilotagem, não fui a última (iupiiiiii). Lá, 86 atletas largaram, 76 terminaram e eu fiquei em 72!

WC Albstadt
WC Albstadt
WC Albstadt
Em La Bresse na França, meu Deus, preciso de um texto pra falar só dessa prova. Foi o dia de trabalho mais difícil na minha vida. A pista de lá é basicamente uma subida longa e uma descida. Só que essa descida é tipo um campo de guerra de obstáculos, você tem que vencê-los pra poder fechar a volta e repetir tudo de novo. Com a chuva da madrugada, trechos do percurso ficaram lisos e cheios de lama. Eu só lembro de ter pernas para subir com outras meninas, mas de na hora de descer, ficar completamente atrapalhada com a sequência de obstáculos, mesmo tendo zerado tudo nos treinos. Na terceira volta, cai de cabeça muito feio na aterrizagem de um drop (roda dianteira bateu numa pedra) e depois disso não consegui mais pedalar. Fechei a volta praticamente empurrando. Eu estava dignamente brigando pela penúltima posição, mas depois desse capote não teve jeito. Fechei em último e com uma torcida mais incrível, surreal. As pessoas gritavam meu nome! Arrisco dizer que torceram mais pra mim, a última colocada com cara aterrorizada mas ainda puxando algum sorriso emocionado, do que pro Absalon!

Momento emocionante: percorrendo o percurso a pé com a torcida gritando meu nome e aplaudindo.
Depois de La Bresse, com o psicológico abalado e algumas marcas no corpo, passei uma semana em Aalen - Alemanha, onde fica a base da equipe com o Steffen (chefe) e o Simon, recuperando e me preparando para o bloco de treinos do mundial de maratona.

Depois a Nathi me buscou e fomos pra casa dela, em Solothurn - Suiça. Lá foi o lugar eleito para o sofrimento, pra botar o TSS nas alturas, pra fazer tiro de 4min e falhar ao tentar chegar no mesmo lugar no tiro seguinte, pra subir montanha e mais montanha depois dos intervalados, com frio e chuva. Pra andar com as meninas “top 10”, tomar na cabeça já nos treinos, e poder tomar um pouco menos na prova. E muito mais coisas.

Sobre o mundial de cross country maratona 
Enfim, o preparo foi bom, e depois, analisando o desempenho no mundial, percebi que tinha sido bom mesmo. Não tínhamos traçado meta de resultado, apenas dar o meu melhor, e ver o que vinha. Mas em nenhum momento imaginávamos a possibilidade de andar top 40.


Fiz uma excelente largada, me mantendo no meio do pelotão na primeira subida. Quando entramos no primeiro descidão, vi que estava bem posicionada em um grupo de meninas que andavam bem, “não saio daqui”. Só que.... minha corrente caiu e enrolou nela mesma, e minha pausa pra consertar custou todas as posições. Lembrei do Steffen me falando que nada era motivo para não pensar positivo, e que eu deveria apenas: pensar coisas boas. Esse “ensinamento” foi meu mantra. Passei grupos quando possível, mantive bom ritmo e cuidei pra não cometer erros.


Quando passei no ponto de apoio, o mecânico me deu minha posição: 30. “Oi???!!!”. Eu JURO que eu pensei que o Steffen tinha combinado isso com o Tom, para me fazer ir além. Fiquei p da vida! Rs. Mas deu certo – mesmo que fosse coisa da minha cabeça! Dei o que tinha, segui firme no meu passo para fechar top 30, sem economizar.


Passei mais um grupo de meninas, e pelos meus cálculos, andei na 25ª posição. Como era esperado, a última subida (até postei um vídeo dela no face quando fiz o reconhecimento) foi cruel, e voltei pra 30ª posição. Depois veio o ultimo downhill, uma trilha fluida pela floresta, longa, um lugar paradisíaco para qualquer mountain biker! Eu estava exausta e tinha que cuidar pra não fazer erros estúpidos. Estava tudo impecável, até eu tomar um capote há 5 metros de chegar no estradão que ligava ao fim da prova. Há 3k da chegada. Tinha uma enorme poça de lama, precisava controlar a velocidade para passar pelo canto e meu dedo indicador simplesmente não alcançou a manete do freio (!!??). Eu não consegui frear, estava no ar, cai, tomei um belo capote. A bike não quebrou (completamente), nem eu, e pude terminar. Enquanto estava levantando do chão, mais uma me passou, e eu cruzei a linha em 31º. Ok, MUITO BOM!

Steffen, Nathi, eu e Remi
Sobre o mundial de cross country olímpico
No dia seguinte voltamos de Laissac – França (local do mundial XCM), para Aalen – Alemanha. Dormimos uma noite e seguimos viagem para Nove Mesto na Morave – República Tcheca. (Olhe no mapa e vai perceber que em dois dias eu praticamente cruzei a Europa de Oeste pra Leste!)
O Simon (companheiro de equipe) foi bronze no XC Eliminator ano passado, e era um dos favoritos para esse ano. A corrida dele era na 4ª feira e nós estávamos lá para dar todo apoio necessário.
Minha função na equipe era a mais graciosa: cuidar da baby Nora (filha do chefe). O Loris ficou responsável por segurar o Simon na largada, a Kerstin (esposa do chefe) cuidava de dar a suplementação do Simon assim que ele terminasse as baterias e certificar que ele tinha tudo que ele precisava o tempo todo. E o Steffen olhava a linha dos outros atletas na pista e fazia o check up mecânico depois de cada toda volta.
Simon conquistou uma merecidíssma PRATA, e o trabalho em equipe foi muito comemorado.
Agora era hora de eu me preparar pra minha prova no sábado. Ainda sentindo o cansaço do mundial de XCM, reconheci devagarinho o percurso com ajuda dos meninos, defini minhas linhas, me senti confiante nas decidas hiper técnicas, raízes e rock mega-gardens.
Na largada eu estava super bem posicionada, tão bem que fiquei atrás da Gun Rita quando ela caiu após ser empurrada por outra atleta. Isso me custou vários watts e não teve chance de não ficar entre as últimas na primeira subida. Lutei pela penúltima colocação mais uma vez, mas na 4ª volta rasguei o pneu traseiro descendo o rock garden, e tive que andar metade da pista até o apoio para seguir até o ponto de corte.


Fiquei super triste com esse rasgo, pois depois do pouco de experiência que tive em XCO, é na 4ª volta que começo a me sentir bem e evoluir na prova, sem contar que aquele percurso de Nove Mesto é incrível e eu queria poder “curtir” mais um pouco daquilo.
Sempre que lembro, dou muita risada da piada que um amigo (muy amigo rs) fez: se eu fui a última colocada no campeonato mundial de XCO, então eu sou a pior do mundo! kkkkkkkkk Mas olha só, alguém tem que dar a cara e ser a última colocada de uma prova, não é mesmo? Eu me orgulho da minha coragem e disposição.
Meu irmão pilota carros, kart, e minha família entende do assunto. Para explicar pra eles o que eu estava fazendo correndo XCO, usei uma analogia que acredito ajudar a entender a “roubada”: imagina um piloto de rally participar de algumas etapas do GP de F1 sem nunca ter pilotado nem Kart. Faz sentido?

De volta ao Brasil, o foco era defender minha camisa de campeã Brasileira de Maratona.
Sabia que não seria uma tarefa fácil. Tive uma experiência fantástica de 2 meses na Europa e um desempenho ótimo no mundial, mas estava tentando passar por cima de um cansaço mental (mais do que físico) para me manter firme na disputa.
No dia da prova, não teve briga pelo ouro, mas a prata chegou perto, ficou a 30 segundos de mim por 20 kilometros! Um probleminha mecânico e um erro técnico mataram os últimos watts que eu tinha estocado para atacar, e o Bronze foi muito comemorado.

A vitória no Big Biker veio como um bônus no fim da temporada. Correr em Santo Antônio do Pinhal é como correr em casa pra mim, e não podia deixar de estar lá. Minha cabeça já estava em outro lugar, na renegociação do contrato com a equipe, nos projetos de 2017, mas alinhei para fazer o que eu melhor sei fazer: uma prova de maratona. A vitória aconteceu no sprint, na última subida, e fiquei muito, muito feliz! Com ela, levei o título do circuito! Que coisa boa!!!

E assim fechei o ciclo de competições,com a sensação de que não economizei energia para me recuperar de cada “tapa” ou tombo, e poder me expor novamente (para levar outro), e assim sucessivamente.
Lembrança da Costa Blanca com a Nathi
Olhando pra trás, nem me lembro quando foi meu último descanso. Depois que venci a Brasil Ride com a Raiza, minha vida virou de ponta cabeça – ou melhor, ela virou pro lado certo - e eu não quis perder nenhuma oportunidade de evoluir, aprender, expandir minha rede de relacionamentos e aprofundar meu conhecimento (principalmente de mim mesma).

Nesse período, perdi casamentos, aniversários, nascimentos, viagens em família, estive 100% focada em meu desenvolvimento profissional.

Agora é hora de colocar tudo na balança e decidir se eu encontro um novo hobby ou se pego o meu de volta.

Janeiro
Agosto
Setembro
Obrigada a todos vocês que torcem, acompanham, vibram, apoiam, incentivam.
Agradeço as minhas amigas que ainda não desistiram de mim apesar da minha ausência, dos meus familiares e do meu noivo que fez tudo o que pode para me acompanhar nessa rotina maluca.

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